114 anos de Conquistas e Glórias Alvinegras

Redação Santos Notícias

Gabriel Pierin, do Centro de Memória

No dia 14 de abril de 1912, um domingo à tarde, há exatos 114 anos, dezenas de jovens seguiram juntos de bonde em direção à Praça do Rosário. O ponto de encontro era o prédio do Club Concórdia, situado na então rua do Rosário, nº 18 (atual João Pessoa), onde subiram a escadaria que conduzia ao amplo salão da sede.

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A presença numerosa chamava atenção. Entre os participantes havia rapazes muito jovens, como Arnaldo Augusto Millon, de apenas 15 anos, e seu irmão Adolpho Millon Junior, de 16. Também estavam presentes figuras já conhecidas na vida social santista, como Harold — então com 27 anos —, remanescente das primeiras iniciativas ligadas ao futebol na cidade, ainda em 1902, na praia do Embaré.

Predominavam estudantes e esportistas. Aos poucos, o salão foi se enchendo, até que Raymundo Marques tomou a palavra para conduzir a reunião. Ele relembrou o cenário do futebol local após a interrupção das atividades do C.A. Internacional e a mudança do S.C. Americano para São Paulo. Destacou ainda o crescimento do esporte na capital e no interior, enquanto Santos ficava sem representação. Era preciso reagir.

Raymundo deixou claro que não pretendia assumir a presidência. Informou que havia conversado com Sizino Patusca e George Cox, propondo seus nomes para presidente e vice-presidente. A sugestão foi recebida com entusiasmo e aprovada por aclamação.

Em seguida, num tom mais leve, chamou a atenção para um detalhe fundamental: o novo clube ainda não tinha nome. Abriu então espaço para sugestões. Entre as propostas surgiram África, Brasil e Concórdia, mas nenhuma delas convenceu.

Foi quando Edmundo Jorge de Araújo, filho de Sóter de Araújo, pediu a palavra e fez uma sugestão direta e simbólica: o clube deveria carregar o nome da própria cidade que representaria. Propôs, assim, “Santos Foot-ball Club”.

A ideia repercutiu imediatamente. Raymundo submeteu à votação, e o salão respondeu com aplausos generalizados. Nascia ali o Santos Futebol Clube.

Na manhã seguinte, a cidade despertava com a novidade. Antes mesmo do início do expediente, leitores buscavam os jornais para conferir os detalhes. O periódico A Tribuna registrou a fundação e apresentou a primeira diretoria, liderada por Sizino Patusca, além de divulgar as cores iniciais do clube: branco e azul, separados por um friso amarelo.

Nos primeiros anos, o Santos assumiu um caráter marcadamente familiar. Muitos de seus integrantes estavam ligados por laços de parentesco, formando uma rede que unia tradição, convivência social e paixão pelo esporte. Esse vínculo não era casual: numa cidade com cerca de 90 mil habitantes, histórias e trajetórias frequentemente se entrelaçavam.

Um exemplo emblemático é o de Agnello Cícero de Oliveira, presidente entre 1914 e 1917 e peça-chave na aquisição do terreno e na construção da Praça de Esportes, futura Vila Belmiro. Ele também lideraria o clube em momentos decisivos, como na transição para o profissionalismo, em 1932-1933.

Sua família teve papel central na formação do Santos. Seu irmão Ricardo Pinto de Oliveira integrou a equipe de 1913 e também atuou como dirigente. Ricardo era, ao mesmo tempo, primo e cunhado de Arnaldo e Oswaldo Silveira, também jogadores do clube. Outros irmãos, como Randolfo, Américo e Virgílio (o Bilú), também contribuíram — este último destacando-se como técnico campeão paulista em 1935.

A participação feminina também foi marcante desde o início. Iraídes Ricardina de Oliveira Ratto, a dona Didi, foi responsável pela confecção dos primeiros uniformes e da primeira bandeira do clube. Seu marido, Nhonhô Ratto, colaborou diretamente na preparação do primeiro campo, na Vila Macuco.

Essas conexões se ampliavam com a família Patusca. Muitos desses personagens eram parentes de Sizino Patusca, primeiro presidente do clube, e também de jogadores como Ary, Ararê e Araken Patusca. A tradição esportiva se estendia ainda a figuras como Francisco Martins dos Santos e Alzira Martins Lichti, esta última pioneira na organização do esporte feminino e da torcida santista.

Com o crescimento do clube, novos sócios passaram a integrar seus quadros. Em sua maioria, eram jovens entre 15 e 24 anos, estudantes ou trabalhadores do comércio. Esse perfil refletia a rápida popularização do futebol na década de 1910.

Desde seus primeiros passos, o Santos se consolidava não apenas como uma equipe esportiva, mas como uma instituição aberta e agregadora, marcada pela diversidade e pela ausência de barreiras de idade, gênero ou condição social.

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