Paulista de 73: Um título, dois campeões

Redação Santos Notícias

Por Gabriel Pierin, do Centro de Memória

Há 53 anos, o Santos conquistava seu 13º Campeonato Paulista — mas aquela decisão entraria para a história por um motivo que ninguém poderia imaginar. No Morumbi, diante de mais de 116 mil torcedores, Santos e Portuguesa protagonizaram uma final dramática, sem gols e marcada por um erro de arbitragem que acabou transformando a competição em um caso único: pela primeira vez, o título paulista seria dividido entre dois clubes.

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O campeonato daquele ano reunia 12 equipes, em dois turnos. O Santos venceu o primeiro de maneira invicta, com oito vitórias e três empates. A campanha teve ainda goleadas expressivas: 3 a 0 sobre o Corinthians, 6 a 0 diante do Juventus e 5 a 1 contra a Ponte Preta. Foram 23 gols marcados e apenas cinco sofridos. No segundo turno, a Portuguesa terminou na primeira colocação e garantiu, ao lado do Peixe, o direito de disputar a grande decisão.

E o cenário não poderia ser maior. Em 26 de agosto de 1973, Santos e Portuguesa entraram no Morumbi diante de 116.156 espectadores pagantes, recorde de público para uma partida de futebol no estado de São Paulo.

Escalado por Pepe, o Santos foi a campo com Cejas; Zé Carlos, Carlos Alberto, Vicente e Turcão; Clodoaldo e Léo Oliveira; Jair da Costa, Brecha, Euzébio, Pelé e Edu. A Portuguesa, comandada por Otto Glória, atuou com Zecão; Cardoso, Pescuma, Calegari e Isidoro; Bedeco e Basílio; Xáxá, Enéas, Cabinho e Wilsinho.

O Santos tomou a iniciativa desde o início e dominou a partida. Pelé chegou a acertar a trave três vezes, mas o gol não saiu. Nem no tempo regulamentar, nem na prorrogação. O 0 a 0 levou a decisão para os pênaltis.

Pelo Santos, Zé Carlos, Carlos Alberto, Edu, Pelé e Léo Oliveira foram os escolhidos para as cobranças. Pela Portuguesa, Isidoro, Calegari, Wilsinho, Basílio e Tatá.

A disputa começou equilibrada. Na primeira rodada, os goleiros defenderam as cobranças. Na sequência, Carlos Alberto marcou para o Santos, enquanto Calegari parou em Cejas. Edu ampliou a vantagem santista, e Wilsinho acertou o travessão.

Foi então que aconteceu o episódio que mudaria a história daquela final.

Com o Santos vencendo por 2 a 0 nas cobranças e ainda restando duas batidas para cada equipe, o árbitro Armando Marques encerrou a disputa e declarou o Peixe campeão. O problema era matemático: a Portuguesa ainda tinha possibilidade de empatar a série, desde que convertesse suas duas cobranças restantes e o Santos desperdiçasse as suas.

O erro foi percebido depois. As equipes foram chamadas novamente ao gramado para concluir a disputa. O Santos retornou, mas a Portuguesa, orientada por Otto Glória, deixou o Morumbi às pressas, sem sequer tomar banho ou trocar de roupa. A decisão acabou nas mãos da Federação Paulista de Futebol.

Sem espaço no calendário para uma nova partida, diante da proximidade do Campeonato Brasileiro, as diretorias de Santos e Portuguesa e o presidente da FPF, José Ermírio de Morais, chegaram a uma solução inusitada: o título paulista de 1973 seria dividido.

Armando Marques reconheceu o erro. “Não foi um erro de direito, foi um erro matemático. Pensei que o Santos tinha uma vantagem matemática insuperável sobre a Portuguesa. A culpa foi toda minha”, declarou após a partida.

Assim, o campeonato terminou com dois campeões: Santos e Portuguesa.

Para o Peixe, porém, aquela conquista carregava ainda um significado especial. Com 11 gols, Pelé terminou novamente como artilheiro do Campeonato Paulista — pela 11ª vez em sua carreira.

E aquela seria a última taça estadual levantada pelo Rei do Futebol com a camisa do Santos.

Um título dividido. Uma decisão inesquecível. E uma das histórias mais curiosas do futebol brasileiro.

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