Antes de uma notícia ganhar as páginas de um jornal, existe uma história para ser descoberta. Há perguntas, pesquisas, observação e muita curiosidade.
Em tempos em que as informações chegam à palma da mão em poucos segundos, por meio dos celulares e das redes sociais, o jornal impresso pode parecer um objeto distante para as novas gerações. Para muitas crianças, ele é uma novidade. Um papel cheio de letras, fotografias, manchetes e histórias. Mas é justamente esse universo que tem ganhado espaço em duas escolas da Rede Municipal de Ensino de Itanhaém.
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Na EM Leonor Mendes Barros, o jornal chegou às mãos das crianças como parte de uma experiência de leitura, arte e imaginação. A partir do livro O Jornal, da escritora Patrícia Auerbach, a professora de Creche Elisângela trouxe aos pequenos o jornal. Eles bservaram suas páginas, descobriram suas possibilidades e ouviram a história que inspirou a atividade. Depois, vieram as pinturas, as dobraduras e as brincadeiras. A letra inicial do nome ganhou cor pelas mãos das crianças e, aos poucos, aquilo que antes poderia ser apenas uma folha de papel se transformou em material para criar.
A professora criou uma Sala Imersiva do Jornal, onde os pequenos puderam riscar, brincar, explorar e deixar a imaginação conduzir cada descoberta.
Segundo Elisângela, cada uma dessas vivências faz parte do Projeto Institucional de Leitura – Leitura em Campo, desenvolvido pela unidade. A proposta é que cada turma escolha um gênero textual para explorar de diferentes formas, aproximando as crianças da leitura por meio de experiências.
“Essa história ainda terá novos capítulos. Faremos um jornalzinho produzido pela própria turma, reunindo tudo aquilo que foi descoberto durante essa jornada”, destacou.
Pequenos jornalistas em ação
Se na EM Leonor Mendes o jornal despertou a curiosidade das crianças por meio da brincadeira e da imaginação, na EM Ana Cândida ele se transformou em uma verdadeira redação.
Desde abril, os alunos do 5º ano estão descobrindo o universo do jornalismo enquanto produzem o próprio jornal da escola.
O projeto Conecta Ana, idealizado e desenvolvido pela professora Juli Elen dos Reis Oliveira Staduto, transformou a rotina escolar em uma experiência jornalística. Os estudantes pesquisam, entrevistam, escrevem, fotografam, organizam pautas e acompanham de perto todas as etapas da produção de cada edição.
A primeira publicação foi dedicada ao aniversário de Itanhaém. Para contar a história da cidade, as crianças mergulharam em pesquisas sobre a cultura, as tradições e a trajetória do município.
Na edição seguinte, o tema escolhido foi a tradicional Festa do Divino. Mais uma vez, os estudantes assumiram o papel de repórteres e se envolveram com pesquisas e entrevistas para conhecer melhor uma das manifestações culturais mais importantes da cidade.
Já a terceira edição levou os pequenos jornalistas para dentro da própria escola.
Dessa vez, os personagens das reportagens eram os funcionários da unidade. Além de conhecerem melhor a função de cada profissional, os alunos descobriram histórias, habilidades e talentos que muitas vezes passavam despercebidos na correria do dia a dia.
A proposta, batizada de “Talentos Escondidos”, ajudou a aproximar ainda mais estudantes, profissionais e famílias da comunidade escolar.
Para a professora Juli Elen, uma das maiores riquezas do projeto está justamente no incentivo à leitura. O Conecta Ana permite que as crianças leiam histórias produzidas por elas mesmas, com assuntos que pesquisaram e personagens que entrevistaram.
“Não há nada que incentive mais a leitura em uma criança do que a motivação de ler um texto que ela mesma produziu e que foi publicado em um jornal. Eles ficam muito orgulhosos, e aí a vontade de ler e de mostrar para as famílias só aumenta”, destaca a professora.
E o sentimento também é percebido pelos próprios alunos. Para Luiza Jesus Zanon, participar da produção do jornal tem sido uma experiência inesquecível.
“A gente se sente jornalista de verdade. Fizemos pesquisas e entrevistamos as pessoas”, conta a estudante.
Na redação da EM Ana Cândida, todo mundo tem uma função. Assim como acontece em um jornal de verdade, a produção do Conecta Ana envolve diferentes assuntos. E ninguém ficou de fora.
O aluno Isaac, que tem paralisia cerebral, encontrou uma maneira especial de participar do projeto. Ele assumiu a missão de fotógrafo oficial da turma e se divertiu registrando os momentos e personagens das reportagens.
O resultado é um jornal completo, feito pelas crianças e pensado para toda a comunidade escolar.
Além das reportagens e conteúdos informativos, o Conecta Ana também abre espaço para momentos de descontração, com tirinhas e receitas de família enviadas pelos próprios alunos.
Outra seção chama a atenção: o Divulga Ana, um espaço dedicado à divulgação do trabalho de pais e responsáveis dos estudantes. A iniciativa fortalece ainda mais a relação entre escola e comunidade, permitindo que as famílias também façam parte das páginas do jornal.
A diretora da unidade, Kátia Martins Barreto, conta que apoiou o projeto desde o início e comemora o envolvimento de toda a comunidade escolar.
“Está sendo um trabalho muito querido na nossa unidade. Por mim, vamos dar continuidade. É maravilhoso ver essa empolgação dos alunos e a participação da comunidade”, afirma.
Entre dobraduras, pinturas, manchetes, entrevistas, fotografias e textos cuidadosamente escritos, crianças de diferentes idades estão redescobrindo um objeto que marcou gerações.
Em uma escola, o jornal vira brinquedo, arte e imaginação. Na outra, transforma alunos em repórteres, fotógrafos e escritores. Experiências diferentes, mas que partem do mesmo princípio, valorizar a leitura, seja nas mãos de uma criança que descobre o jornal ou de um aluno que vê sua própria reportagem impressa.
Porque apesar do jornal ter perdido espaço na rotina das novas gerações, ele ainda tem muitas histórias para contar. E Itanhaém, agora tem novos leitores e pequenos jornalistas, prontos para escrevê-las.