Gabriel Pierin, do Centro de Memória
Na noite de 11 de setembro de 1963, uma quarta-feira, o Santos entrou na Bombonera diante de 85 mil torcedores do Boca Juniors. Era uma multidão fanática, empurrando o time argentino em busca de uma conquista inédita. A partida estabeleceu ainda um novo recorde de renda para jogos de futebol na América: 120 mil dólares.
Havia razões de sobra para os argentinos acreditarem no título. No primeiro jogo da decisão da Taça Libertadores, no Maracanã, o Santos abriu 3 a 0, com dois gols de Coutinho e um de Lima. Nos minutos finais, porém, Sanfilippo marcou duas vezes e reduziu a vantagem para 3 a 2. O resultado mantinha o Boca vivo e transformava a Bombonera em um caldeirão.
Campeão da Libertadores de 1962, o Santos entrou diretamente na semifinal. Seu adversário foi o Botafogo, líder isolado de um grupo que reunia Alianza Lima, do Peru, e Milionários, da Colômbia. Santos e Botafogo formaram a base da Seleção Brasileira na Copa do Mundo disputada naquele ano, e o clube carioca havia terminado como vice-campeão brasileiro, atrás do Peixe.
No primeiro confronto, no Pacaembu, o Santos sofreu para arrancar um empate por 1 a 1, com Pelé marcando aos 45 minutos do segundo tempo. No Maracanã, porém, diante de mais de 44 mil espectadores, o Alvinegro da Vila Belmiro não deu chances ao adversário: 4 a 0, com três gols de Pelé e um de Lima.
Do outro lado estava o Boca Juniors, campeão argentino e estreante na Libertadores. Na fase de grupos, os argentinos superaram Olimpia, do Paraguai, e Universidad de Chile. Na semifinal, passaram pelo poderoso Peñarol, campeão uruguaio, com duas vitórias.
A derrota por 3 a 2 no Maracanã aumentava ainda mais a tensão para a partida decisiva. A pressão era enorme, o gramado estava em péssimas condições e o Santos precisaria resistir a um ambiente hostil para conquistar novamente a América.
Sem Mengálvio, o técnico Lula promoveu mudanças na equipe. Lima foi deslocado para o meio-campo, Dalmo ocupou a lateral-direita e Geraldino entrou na esquerda. O Santos começou com Gylmar, Dalmo, Mauro, Calvet e Geraldino; Lima e Zito; Dorval, Coutinho, Pelé e Pepe.
O Boca, dirigido por Aristóbolo Deambrosi, formou com Errea, Magdalena, Orlando Peçanha e Simeone; Rattin e Silveira; Grillo, Menéndez, Rojas, Sanfilippo e González. A arbitragem ficou a cargo do francês Marcel Albert Bois.
Precisando vencer, o Boca partiu para cima desde os primeiros minutos. Gylmar, em grande fase, foi obrigado a trabalhar intensamente e realizou uma série de defesas importantes. O Santos também encontrou espaços e Pelé chegou perto de marcar, mas foi parado com violência. O árbitro controlou a situação e advertiu o infrator.
O primeiro tempo terminou sem gols. O Santos controlava o jogo, enquanto o Boca procurava transformar a pressão das arquibancadas em vantagem dentro de campo.
O gol que silenciou a Bombonera
Logo no primeiro minuto da etapa complementar, Grillo cruzou para a área. Gylmar e Mauro se atrapalharam na tentativa de interceptar a bola, que acabou sobrando para Sanfilippo. O atacante argentino dominou e chutou de pé direito para o gol.
A Bombonera explodiu. O 1 a 0 levaria a decisão para uma terceira partida. Ao Santos, o empate bastava. E a resposta veio imediatamente. Três minutos depois, Dorval interceptou uma cobrança de tiro de meta mal executada por Errea e tocou para Pelé. O Rei levantou a cabeça e percebeu Coutinho entrando entre os zagueiros. O centroavante recebeu e bateu seco, rasteiro, no canto. Gol do Santos.
A festa argentina durou apenas três minutos. O empate devolveu ao Peixe o controle da partida e mudou o ambiente dentro da Bombonera. Mauro comandava a defesa com segurança. Lima fazia uma atuação brilhante na cobertura, enquanto Dalmo e Geraldino recebiam o auxílio de Dorval e Pepe para conter as investidas de Grillo e González. Na frente, Coutinho e Pelé começavam a encontrar espaços para atormentar a defesa argentina.
Até que, aos 37 minutos, veio o golpe definitivo. Coutinho recebeu pela ponta esquerda, avançou, cortou para o meio e encontrou Pelé na entrada da área. Cercado por três adversários, o Rei passou a bola entre as pernas de Orlando Peçanha e, na saída de Errea, tocou para o fundo das redes. Era o segundo gol do Santos. Por um instante, a Bombonera emudeceu. Pelé foi imediatamente cercado pelos companheiros. E aconteceu algo raro naquela noite: o maior jogador do mundo recebeu aplausos de todo o estádio, inclusive de parte da implacável torcida adversária, rendida à genialidade do Rei do Futebol.
O Santos vencia o Boca Juniors por 2 a 1, conquistava novamente a América e garantia o direito de disputar o título mundial contra o Milan, campeão europeu. Viria então outra batalha histórica. Contra os italianos, o Santos protagonizaria uma das mais espetaculares viradas de sua trajetória. Mas essa já é outra história. Uma entre tantas datas inesquecíveis da inigualável história do Santos Futebol Clube.