Guilherme Guarche, do Centro de Memória
No dia 5 de março de 1961, em partida válida pelo Torneio Rio-São Paulo, o Rei Pelé marcou um gol tão extraordinário que mereceu uma placa no Estádio do Maracanã. O lance aconteceu aos 40 minutos da vitória do Santos, por 3 a 1, diante do Fluminense — um gol de jogada individual, de traços únicos, que fez vibrar o público presente ao estádio.
Pelé recebeu a bola poucos metros além da linha do meio-campo e aplicou a primeira finta em um jogador do Fluminense. Arrancou em velocidade, superando sucessivos adversários com dribles rápidos até entrar na área. Mesmo pressionado, ao perceber a saída de Castilho, o camisa 10 santista finalizou com classe no canto direito, marcando um belo e memorável gol.
A ideia de instalar uma placa no Maracanã em homenagem ao lance foi do jornalista Joelmir Beting, já falecido, pai do também jornalista Mauro Beting.
Além desse gol histórico, Pelé marcou mais um, e Pepe completou o placar. Naquele dia, o Santos entrou em campo com: Laércio, Fioti, Mauro, Dalmo e Calvet; Zito e Mengálvio (Ney); Dorval, Coutinho, Pelé e Pepe (Sormani). O técnico era Luiz Alonso Perez, o Lula.
O jornalista Antônio Guenaga, no jornal A Tribuna, descreveu assim o segundo gol de Pelé: “Ouvi domingo comentários de diversas rádios sobre o gol nº 2 de Pelé. Os locutores sentiram até dificuldade para descrever o lance, e um deles, de São Paulo, afirmou que, para a próxima partida do Santos, trará um dicionário, porque os adjetivos mais usuais já se tornaram lugares-comuns para enaltecer o valor e a maneira realmente impressionante como o meia-esquerda do Santos, a cada partida, dá largas ao seu espírito criador”.
O jornal O Globo também destacou o feito: “Desde que surgiu, garoto ainda, para o futebol profissional e para a fama, Pelé não havia conseguido marcar um só tento contra o Fluminense. (…) Ontem à tarde, no entanto, ao mesmo tempo em que derrubava a outra história, a de que não produzia o quanto é capaz no Maracanã, Pelé quebrou o tabu, assinalando o primeiro ‘goal’ do Santos, quando os relógios decretavam o 3º minuto do jogo”.
Sobre o segundo gol, o jornal A Tribuna afirma tratar-se de “um gol para entrar para a história”. No mesmo jornal, o jornalista Chico Sá escreveu: “Vou dedicar, hoje, estes trechos a Pelé. Não sou lá muito amigo destes destaques, pois sei que futebol se faz com onze e não com um. Mas aquele gol do Maracanã parece que nunca aconteceu no Brasil, ou se nunca, pelo menos, no maior Estádio do mundo. A crônica carioca, (a paulista e a nossa também, vá lá!) se pôs de boca aberta e ainda está! Patética, estupedeficada, em pasmo: e foi mesmo. Pelé ‘Hors Concours’. Valeu pelo espetáculo inteiro. Teve instantes de inenarrável sublimação. Foi quando sentiu o quanto é amado pela torcida carioca. Até o pessoal do Fluminense bateu palmas para ele”.
Na partida anterior ao jogo do “gol de placa”, o Santos havia vencido o Vasco da Gama por 5 a 1, no Pacaembu. No confronto seguinte, aplicou nova goleada: 7 a 1 sobre o Flamengo, novamente no Maracanã — todos jogos pelo Torneio Rio-São Paulo. O goleiro do time carioca no dia do “gol de placa”, Castilho, seria, em 1984, o técnico campeão paulista pelo Santos.