A Primeira Conquista Internacional completa 70 anos

Redação Santos Notícias

Gabriel Pierin, do Centro de Memória

A decisão do Torneio Roberto Gomes Pedrosa de 1956 colocou frente a frente Santos e Newell’s Old Boys em jogo único no Pacaembu, na noite de 29 de março, uma quinta-feira. O público assistiu à vitória contundente do time brasileiro por 5 a 2, triunfo que marcou a primeira conquista internacional da equipe da Vila Belmiro, há exatos 70 anos.

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No início de 1956, o Santos ainda não contava com Pelé, mas já se afirmava como uma força crescente no futebol nacional. O elenco vinha embalado pelo título paulista de 1955 e havia sido um dos representantes do Estado escolhidos para integrar a fase internacional do torneio — versão oficial do Rio-São Paulo — ao lado de Palmeiras, Corinthians, São Paulo, Portuguesa, além dos convidados Nacional, do Uruguai, e dos argentinos Boca Juniors e Newell’s.

A competição sofreu turbulências antes de começar. Os clubes cariocas pressionaram por um adiamento para o segundo semestre, alegando que perderiam atletas convocados para o Sul-Americano de seleções. A réplica paulista foi imediata: o torneio já fazia parte do calendário e sua mudança abalaria financeiramente os clubes. A Confederação Brasileira de Desportos apoiou São Paulo, e as equipes do Rio se retiraram. Assim, aquela edição acabou reconhecida apenas como uma disputa entre paulistas, embora tenha mantido o caráter internacional na fase final.

O regulamento determinava que os clubes brasileiros enfrentariam somente os estrangeiros, e os melhores de cada bloco fariam a final. A Vila Belmiro recebeu os três jogos classificatórios do Santos. No primeiro deles, em 10 de março, vitória segura por 4 a 2 sobre o Newell’s, com show de Vasconcelos, Pepe (duas vezes) e Negri.

O segundo duelo, em 19 de março, marcou a estreia do veterano Jair Rosa Pinto. Sob chuva intensa, o Boca Juniors abriu vantagem de 2 a 0. Quando o tempo firmou e o campo melhorou, o Santos virou de forma espetacular para 3 a 2, com gols de Pepe, Vasconcelos e Pagão.

Restava enfrentar o fortíssimo Nacional, que estava em meio ao ciclo que o levaria ao tricampeonato uruguaio de 1955 a 1957. Mas antes da bola rolar, surgiu nos bastidores uma situação controversa: Santos e Corinthians tinham campanhas idênticas e apenas um gol de diferença no saldo. Ocorre que o Santos jogaria sua última partida no dia 22, enquanto o Corinthians enfrentaria o Boca apenas no 27, podendo entrar em campo já sabendo exatamente de quantos gols precisava.

Apesar da manobra, o Santos tratou de resolver sua parte. Na Vila, o time atropelou o Nacional por 5 a 0, ignorando inclusive o reforço dos uruguaios Leopardi e Ambrois, recém-chegados da seleção campeã sul-americana. O placar, construído com um gol contra de Leopardi no primeiro tempo e tentos de Pagão (duas vezes), Alfredinho e Urubatão na segunda etapa, desmontou qualquer cálculo dos rivais. O Corinthians até venceu o Boca por 4 a 1, mas não tirou a diferença necessária. Assim, a final ficou entre o melhor brasileiro, o Santos, e o estrangeiro mais bem colocado, o Newell’s Old Boys.

A grande noite no Pacaembu

O técnico Lula mandou a campo Manga; Hélvio (Cássio) e Feijó; Ramiro, Zito e Urubatão; Alfredinho (Sarno), Jair Rosa Pinto, Pagão (Del Vecchio), Vasconcelos e Pepe. Do outro lado, José Ramos escalou Masueli; Griffa e Coronel; Mastrogiuseppe (Bovery), Sanguinetti e Etchevarria; Nardiello, Picot, Rocha (Hernandez), Reinozo (Carranza) e Urquiza (Donelutti). O árbitro foi o inglês Harry Davis.

A atmosfera no Pacaembu era de apoio maciço ao representante brasileiro. A imprensa paulistana, normalmente alinhada com os clubes da capital, reconhecia cada vez mais a qualidade excepcional daquele Santos, algo que mesmo o popular jornal Mundo Esportivo destacava em tons elogiosos.

O jogo foi decidido ainda no primeiro tempo, em um intervalo de dez minutos eletrizantes: Pagão marcou aos 29, Pepe ampliou aos 35 e Vasconcelos fez o terceiro aos 39. Logo no início da segunda etapa, Pagão, de pênalti, anotou o quarto. O Newell’s reagiu com gols de Picot e Hernandez, mas Del Vecchio, que havia substituído Pagão, fechou o placar em 5 a 2, consagrando o Santos campeão.

O impacto da conquista

A vitória foi decisiva para mudar o olhar do país sobre o clube. Aquela equipe ofensiva, técnica e veloz era vista como um sopro de renovação para o futebol brasileiro, então abatido pelas campanhas decepcionantes no Mundial de 1954 e no Sul-Americano de 1956.

Os números da campanha comprovavam a força do time: 17 gols marcados em 4 jogos, média de 4,25 por partida. Pagão terminou como artilheiro, com cinco gols, seguido por Pepe (quatro) e Vasconcelos (três).

A Deusa Alada

No Memorial das Conquistas, na Vila Belmiro, está exposto o troféu daquele título — a célebre Deusa Alada. Identificada, resgatada e restaurada, tornou-se peça de destaque na coleção do clube, símbolo do primeiro passo internacional de uma das maiores equipes da história do futebol.

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